17/06/2020

Vão-se os presidentes, ficam os militares

A pesquisa do Datafolha divulgada no começo do mês identificou que 52% dos brasileiros desaprovam a presença de militares no governo contra 43% favoráveis. Um ano atrás, o mesmo Datafolha verificou o inverso: apenas 36% eram contrários, enquanto a larga maioria de 60% dos entrevistados apoiavam os fardados no poder político.

Nesse mesmo tempo, o número de militares cedidos ao governo cresceu 43% do ano passado e já são 2.897 militares da ativa (sem contabilizar os da reserva).

Uma outra pesquisa do Instituto da Democracia identificou a corrosão das Forças Armadas no que diz respeito ao apoio a golpes militares. Em caso de corrupção generalizada, por exemplo, 48% dos brasileiros em 2018 diziam que o golpe era justificado, e agora esse número caiu para apenas 29%.

É cedo para falar em colapso da confiança sobretudo porque, comparada às demais instituições, as Forças Armadas ainda gozam de prestígio sem igual. Por outro lado, está claro que a instituição está perdendo apelo: já passou o tempo em que os militares eram vistos como a “ala racional do governo” inconfundível ao chefe.

Em entrevista recente para a BBC, o historiador José Murilo de Carvalho, autor do mais famoso estudo sobre as Forças Armadas, afirmou: “A posição dos militares no governo está se tornando cada vez mais desconfortável, porque o fracasso do governo com a presença de vários generais se reflete na imagem das Forças Armadas”.

Num processo que começou no governo Temer até o apogeu com Bolsonaro, os militares voltaram ao poder depois do interregno pós-ditadura em que, pela primeira vez em mais de cem anos de história, estiveram alijados do âmago do poder. Agora que as manifestações contra o presidente tomam as ruas do país, o que farão os militares? A opinião do mesmo José Murilo de Carvalho é que “não creio que a corporação militar esteja disposta a pôr em perigo sua reputação entre a população para defender um presidente que não está à altura do cargo”.

Para entender a inação dos militares, deve-se partir da constatação de que os militares, de fato, são bolsonaristas no que diz respeito aos valores (o aparelho ideológico dos idos da ditadura jamais foi desmontado), embora não como Bolsonaro quanto aos métodos desfuncionais.

Sempre que tentaram corrigi-lo, no entanto, as milícias virtuais gritaram mais alto, basta lembrar dos ataques orquestrados por Olavo de Carvalho que acarretaram a demissão do general Santos Cruz. Esse, para quem não se lembra, saiu dizendo que tudo não passa de uma “fofocagem desgraçada”.

Mas os militares, decerto, não têm medo de fofocas. Se recuavam, é porque uma das principais funções do chamado Gabinete do Ódio, chefiado pelo filho Carlos Bolsonaro, consiste em espalhar fake news e agitar as bases militares para que forcem o alto oficialato à mesma radicalização — tal como ocorreu no tweet do general Villas Boas, às vésperas do julgamento de Lula, em que o comandante admitiu que “a coisa poderia fugir ao nosso controle se eu não me expressasse”. O melhor exemplo de insubordinação das polícias e politização dos quartéis foi o recente motim dos policiais militares do Ceará, o qual “provavelmente só não se transformou em um movimento nacional por causa da pandemia de Covid-19” como disse Marcos Nobre.

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